segunda-feira, 4 de julho de 2016

Senadora francesa se diz chocada com golpe no Brasil

"A interrupção de um governo soberano é um atentado à democracia e ela nos interpela. A presidente Dilma Rousseff foi destituída injustamente. O modo utilizado chocou-me profundamente. Daí, eu reafirmo que se trata de um golpe institucional", declarou Laurence Cohen à jornalista Marilza de Melo Foucher; para a senadora francesa, "com o passar do tempo, vimos que todas as acusações feitas contra Dilma não têm embasamento jurídico, trata-se de um complô, uma combinação entre os corruptos"; ela também chama o governo interino de "ilegítimo" e diz que ele "não representa a diversidade do povo brasileiro"

Por Marilza de Melo Foucher, especial para o 247. Entrevista com a senadora francesa Laurence Cohen:

Gostaria de formular duas questões:

Embora sua ação solidária com outros países da América Latina já seja amplamente conhecida, no caso específico do Brasil, de onde vem seu engajamento político?

Nesta iniciativa do colóquio no senado francês, a solidariedade com relação à presidente Dilma Rousseff, vítima de um golpe institucional, foi prestada por V. Excia. enquanto mulher ou enquanto parlamentar? Ou as duas?

Meu engajamento político com a América Latina vem desde a época das ditaduras do Cone Sul. Minha primeira luta começou contra Pinochet no Chile, em seguida eu me envolvi nas frentes de luta pela democratização de outros países da América Latina. Depois, em 2011, fui eleita senadora e passei a ser presidente do grupo da amizade França-Brasil. Esta função leva-me a ter maior aproximação com o Brasil, para onde tive oportunidade de viajar duas vezes, quando testemunhei o compromisso da jovem democracia brasileira na reconstrução de um país mais justo. Este país que viveu mais de duas décadas sob uma ditadura enfrentou também as políticas neoliberais de ajustamentos estruturais. Com a chegada dos governos progressistas de Lula e Dilma, houve um esforço considerável de luta contra as desigualdades sociais, eles realizaram um grande trabalho de inclusão social. Alias, houve uma grande mudança em todos os países da América Latina que tiveram governos progressistas depois das ditaduras. A interrupção de um governo soberano é um atentado à democracia e ela nos interpela. A presidente Dilma Rousseff foi destituída injustamente. O modo utilizado chocou-me profundamente. Daí, eu reafirmo como já disse na abertura do colóquio, que se trata de um golpe institucional.

O modo como o parlamento brasileiro tratou Dilma Rousseff me revoltou enquanto mulher. Eu não posso, enquanto mulher e enquanto senadora, tolerar a violência verbal de qualquer parlamentar, principalmente do deputado de extrema direita que dedicou seu voto ao torturador da presidente Rousseff. O fato de ela ser uma mulher torna a violência verbal bem maior. Logicamente tudo isto me tocou profundamente.

Podemos até não concordar com toda política governamental da presidente Dilma, mas essa mulher deve ser respeitada, porque ela é uma mulher combatente e tem uma história de resistência à ditadura. O que se passou no Brasil atinge toda a região da América Latina e o mundo, daí porque não podemos tolerar que uma jovem democracia seja desrespeitada. Temos que considerar o sufrágio universal dos 54 milhões de votos dos brasileiros dados a Dilma Rousseff, a escolha das urnas deve ser respeitada. Com o passar do tempo, vimos que todas as acusações feitas contra Dilma não têm embasamento jurídico, trata-se de um complô, uma combinação entre os corruptos. Sabe-se agora que não existe nada que prove que Dilma Rousseff é uma mulher corrupta, ela nunca intercedeu nos assuntos judiciários. Daí eu denuncio este golpe aqui no Senado da França e assumo este compromisso em nome do respeito de todas as democracias no mundo.

Os que acusaram Dilma de corrupção e sujaram seu nome são os maiores corruptos. Este governo é ilegítimo. Este governo do senhor Temer não representa a diversidade do povo brasileiro. Os integrantes são homens brancos, endinheirados, idosos e misóginos. O governo golpista de Temer desde que assumiu busca destruir as conquistas sociais. A primeira medida deste governo ilegítimo foi extinguir ministérios simbólicos do governo de Dilma como o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, o Ministério da Cultura, assim como fazer cortes públicos nos projetos em andamento. Ele teve ultimamente que recuar dado a indignação provocada no Brasil e no exterior. Porém, estas medidas desmascaram o personagem. Ele nomeou seus amigos corruptos como ministros, quatro deles já se demitiram acusados na Operação Lava-jato. Não podemos ficar calados diante desses fatos e por isto não reconhecemos este governo oriundo de um golpe.

Além disso, o governo interino de Temer tem demonstrado que veio ao poder para representar uma casta de privilegiados e representar a corrente da ideologia neoliberal. Temer decidiu agir rápido para reduzir os investimentos públicos, privatizar os setores públicos como é o caso da educação, saúde e serviços de comunicação pública e aviação. Acabar com as grandes empresas nacionais, o exemplo maior é a Petrobras, onde seus fundos estavam destinados a cobrir as deficiências dos serviços públicos (ver o pré-sal). Sem contar com a grande empresa aviação brasileira. Este governo busca ceder, o mais rápido possível, os interesses nacionais às empresas americanas. Levando em conta meu compromisso político, eu diria que se trata de um combate de classes, ele atua somente para os privilegiados. Seu modo de agir pode provocar rupturas na sociedade brasileira acirrando os conflitos.

Os brasileiros que usufruíram de tanta solidariedade dos franceses durante a ditadura não entendem por que a esquerda demorou tanto a reagir na defesa da jovem democracia no Brasil. Senadora, explique então o longo silêncio da maioria dos políticos e do governo francês?

Eu acho que o silêncio, sobretudo do governo francês, é que atualmente defende acima de tudo seus interesses econômicos com o Brasil em lugar de defender a democracia. O modo operativo do golpe difere da dos militares, não houve a presença das forças armadas... Foi um golpe construído com esperteza... Preservou-se uma falsa fachada de normalidade. O governo francês nesse caso dá continuidade às relações já que os acordos econômicos são preservados. O que eu defendo finalmente é que meu combate é idêntico aqui, no Brasil como na Europa e no mundo. A esquerda não pode virar as costas para os compromissos políticos e sociais, seus governos devem cumprir com suas promessas. Infelizmente o nosso governo privilegia acima de tudo os interesses econômicos em detrimento do engajamento político de defesa de direitos e da democracia. A mesma lógica ele faz no campo da política externa favorecendo apenas os interesses econômicos da França. Enquanto mulher e parlamentar eu espero continuar com minha coerência política e continuar lutando na defesa dos direitos e dos princípios da democracia.

A senhora pensa em continuar esta mobilização para sensibilizar o governo francês e todos os parlamentares a apoiar a volta da presidente Dilma para que o Brasil volte à sua normalidade institucional?

Eu penso que este colóquio é uma primeira etapa. Eu já consegui o apoio do grupo ecologista e do PS, acredito ser possível uma mobilização ainda maior.

A senhora pensa em enviar uma mensagem ao Senado brasileiro?

Sim, esta será a segunda etapa. A nossa solidariedade com a presidente Dilma e com a normalidade da democracia brasileira é total.

De todo modo, vossa iniciativa foi um sucesso, enquanto brasileira lhe agradeço. Parabéns e FORA TEMER.

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