quarta-feira, 18 de maio de 2016

José Serra e o retrocesso na política externa

Envolvido na “privataria” e no “trensalão” tucanos, Serra já demonstra sua falta de habilidade para a diplomacia
José Serra. Foto: Lula Marques/Agência PT.
Entre os muitos estranhamentos que vem causando a composição do governo ilegítimo do presidente golpista Michel Temer – como a ausência de representatividade de mulheres e negros no primeiro escalão e a prevalência de nomes de investigados na Lava Jato –, a escolha de José Serra para o ministério das Relações Exteriores é dos maiores.

Possivelmente rejeitado para pastas que de fato gostaria de ocupar, como a Fazenda e o Planejamento, e tido como um político afeito a intrigas, Serra, em pouquíssimo tempo, já demonstrou sua total inabilidade para o cargo que, aliás, desde o governo FHC, vinha sendo ocupado por diplomatas.

As primeiras notas divulgadas pelo Itamaraty sob seu comando causam surpresa pelo tom nada protocolar. Após vários países se declararem oficialmente contrários ao afastamento da presidenta eleita Dilma Rousseff, destacando os impactos do golpe sobre a estabilidade política e econômica no continente, na sexta-feira (13), a pasta refutou as manifestações de forma pouco “diplomática”.

“O Ministério das Relações Exteriores rejeita enfaticamente as manifestações dos governos da Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua, assim como da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba), que se permitem opinar e propagar falsidades sobre o processo político interno no Brasil”, afirma a nota. “Esse processo se desenvolve em quadro de absoluto respeito às instituições democráticas e à Constituição federal”, afirma a primeira das notas publicadas.

Em outra comunicação, veiculada no mesmo dia, o Itamaraty criticou as declarações do Secretário-Geral da UNASUL, Ernesto Samper, sobre a conjuntura política no Brasil, afirmando que “fazem interpretações falsas sobre a Constituição e as leis brasileiras” e “transmitem a interpretação absurda de que as liberdades democráticas, o sistema representativo, os direitos humanos e sociais e as conquistas da sociedade brasileira se encontrariam em perigo”.

A julgar pelo início de sua gestão à frente das Relações Exteriores, o chanceler golpista, que em uma entrevista concedida em 2012 afirmou que o nome do nosso país é Estados Unidos do Brasil, ao invés de República Federativa do Brasil, significará um enorme retrocesso nos esforços diplomáticos feitos durante os governos do ex-presidente Lula e da presidenta Dilma.

O desenvolvimento de uma política externa ativa e altiva, nos últimos 13 anos, marcada pela diversificação de parceiros comerciais, pelo estreitamento do relacionamento com BRICs e América do Sul, exercendo papel preponderante no processo de integração latino-americana, pode dar lugar às políticas tradicionalmente submissas em relação às potências centrais, virando as costas para o Mercosul.

De trensalão à privataria

A falta de qualidades necessárias para chefiar as Relações Exteriores não é o maior dos problemas de José Serra, que possui um histórico de acusações nada modesto.

Governador de São Paulo entre 2007 e 2010, Serra esteve no comando do Estado quando se desenrolou um dos capítulos do esquema de cartelização e fraude em licitações de aquisição de trens e obras do metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), conhecido como trensalão tucano.

Ministro do Planejamento de Fernando Henrique Cardoso, Serra foi o mentor intelectual do processo de privatizações que dilapidou o patrimônio público brasileiro (setor elétrico, de telefonia e a Companhia Vale do Rio Doce, por exemplo), atuação fartamente documentada no livro “Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr. O esquema movimentou milhões de dólares, fruto de lavagem de dinheiro, via offshores no Caribe.

Em seu mandato como senador, atentou claramente contra a soberania e as riquezas nacionais, apresentando projeto que propunha retirar da Petrobras a exclusividade das atividades do pré-sal. A proposta prevê o fim da obrigatoriedade de a estatal participar com pelo menos 30% dos investimentos nos consórcios de exploração. A negociação com interesses estrangeiros veio a público com o Wikileaks, que vazou documentos mostrando que Serra prometeu à empresa petrolífera Chrevron (EUA), em 2011, mudar as regras da partilha do pré-sal, se eleito presidente.

Da Redação da Agência PT de Notícias.

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